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sábado, 28 de outubro de 2017

Racionais MC’s: Raça e consumo em Cores & Valores

Trata-se de um álbum que tenta dar voz ao espírito contraditório de uma classe social recém-surgida no Brasil e já em perigo de extinção
Por Tomaz Amorim Izabel
“Cores & Valores” foi lançado em 2014, sendo o sexto de estúdio dos Racionais MC’s e o primeiro em 12 anos com faixas inéditas. A expectativa gigantesca do público e da crítica foi satisfeita. O álbum ganhou prêmios e a única reclamação generalizada foi sua curta duração, meia hora para uma espera de mais de uma década do grupo mais importante da história do RAP nacional. 2014 parece pouco tempo atrás, mas a situação político-econômica do país era muito diferente. A cena musical também. O Funk Ostentação seguia para seu terceiro ou quarto ano de triunfo nacional. Do nome ao estilo da música, “Cores & Valores” se encaixou como uma luva neste contexto estético-político. A amplitude das batidas, os efeitos de voz, a colagem documental de reportagens e samples (Cassiano e o Soul estadunidense, sempre presentes!), o swing e o ritmo dos versos, sotaques e timbres, tudo é alucinante como uma viagem narcótica, como um pico ascendente que culmina antes de descer novamente no meio do álbum, em uma repetição prazerosa, em um mantra pop: “Eu compro, eu compro, eu compro”. O rap que dá título ao álbum traz uma referência inesperada: sua batida é da canção Royals da cantora neozelandesa Lorde, que traz na letra uma contradição semelhante ao deste álbum do Racionais: as músicas falam de dinheiro (“But every song’s like gold teeth, Grey Goose, trippin’ in the bathroom”), mas nós nunca seremos parte daqueles que historicamente o têm (“And we’ll never be royals”). A canção de Lorde e o rap dos Racionais performam a mesma contradição: sendo parte de um modo de vida, expressam um desejo frustrado de alcançá-lo. Verdade que o Racionais nunca esquece de onde vem e para quem está falando: o consumo é a culminação da ascensão social de quem não podia consumir e agora pode, ou melhor, em 2014 ainda podia. Uma perspectiva histórica supostamente ausente no Funk Ostentação. Supostamente, porque como os rolezinhos mostraram no mesmo ano, o consumo não é tão universal como pretende o Capitalismo. (“Olha só aquele shopping, que da hora! / Uns moleques na frente pedindo esmola”). Mesmo no caso raro de ter como comprar, a corporeidade denuncia, a pobreza tem uma materialidade que inclui o corpo e a cultura, a aparência: “Mesmo podendo pagar, tenha certeza que vão desconfiar”.
A escolha do nome do álbum é precisa. O par Cores e Valores se multiplica em sentidos diversos e contraditórios. O mais imediato é no nível do consumo: as cores e valores do dinheiro (“notas verde azul piscina”, o laranja gritante, cor do boné de luxo e do uniforme do gari, é tema do álbum), o mundo fica mais colorido, cintilante, de acordo com os valores na conta. O sentido paralelo, contraditório e não contraditório com o primeiro, tensão que perpassa o álbum, está no nível ético: cores de raça, brancos e negros, e valores políticos: memória, procedimento, resistência. O álbum vai testando hipóteses sobre o par e seus níveis de sentido no Brasil: quem tem cor não tem valores financeiros, embora tenha valores éticos ligados à consciência da raça. Dito pelo avesso: quem não tem cor, os brancos, tem valores financeiros, embora não tenham valores éticos, por causa da opressão histórica. São Paulo simboliza bem a segunda formulação: capital branca do Capital sul-americano e “última a abolir a escravidão”. O álbum como que propõe então uma inversão histórica e ética: Valores para quem tem valores. A esquerda, branca e negra, tenta disfarçar o mal-estar ou a discordância com esta crença de que o dinheiro, por si só, possa corrigir esta versão da luta de classes em que raça e classe se igualam. “Guerra fria, muçulmanos e USA / Preto e branco como jogo de xadrez”. Mas o Racionais não se comove por este mal-estar, pelo nojo de dinheiro de uma certa esquerda pequeno burguesa. (Falar abertamente de valores sempre foi interditado, como deselegância, pelos valores tradicionais…). Nojo que é privilégio de quem o tem e pode viver, na convicção de uma inocência ou pureza, sem pensar muito nele. O Racionais e seu público querem dinheiro (“O vil metal só não quer quem morreu”), sim, e as razões se misturam: do desejo alucinante de consumo à reparação histórica (“Você me deve”), do desejo de conforto de quem trabalhou a vida inteira à segurança que o dinheiro pode oferecer para quem vive em cenários de guerra.
A celebração do consumo aparece, portanto, como celebração de uma emancipação da raça-classe. Consumo como emancipação, como projeto político, como palavra de ordem: “Fique rico ou morra tentando” e mais uma enumeração de grifes de fazer inveja a qualquer Funk Ostentação. Nesse sentido, Cores & Valores é a encarnação artística do projeto político do PT desde 2002. É o representante das contradições produzidas pelo projeto de inclusão social via consumo. Se em 2014 esse projeto já mostrava sinais de derrota, tanto ideológica nas urnas, como material com o início da perda de poder de consumo da classe C, em 2017 as contradições já explodiram. Como consumir, em contexto de crise, sem dinheiro? Sintomaticamente, o rap que vem logo em seguida de “Eu compro” é “A escolha que eu fiz”, que trata justo de um assalto malsucedido em que o eu-lírico reflete do chão, sangrando, prestes a morrer: “Com vinte anos apenas, nunca dei orgulho / Só acumulo problemas / (…) No chão por alguns reais”. Neste som, o fã reconhece o Racionais mais antigo, aquele que conta sem moralismos da sedução e do preço caro da vida de crime, como faria um irmão mais velho que entende, mas tem um conselho. Porque a vida no crime promete solucionar a crise existencial de quem vive na periferia do Capitalismo, aquele que é alimentado constantemente com desejos de consumo sem nunca poder realizá-los. A frustração é permanente nesta “prisão que eu mesmo construí”. As satisfações esporádicas e parciais do desejo pelo assalariado (nunca permanente, nunca do “melhor”) encontram no crime uma possibilidade. O Racionais reconhece isso e ao reconhecê-lo consegue penetrar na intimidade do jovem que está na defensiva contra o moralismo trabalhista-cristão da sociedade.

Um incômodo mais antigo, e infelizmente pouco ambivalente, também se repete neste álbum: a representação da mulher. Ela é mercadoria desejada, também a ser comprada, roubada de outro homem ou cortejada romanticamente. Mesmo na questão racial, sempre tão potente nas letras do Racionais, há pouca diferença. No máximo o interesse masculino fica reduzido às mulheres do seu grupo social-racial. Nas canções mais românticas houve uma inversão em relação a faixas mais antigas: a negra se torna companheira e a branca de alta classe fica relegada ao papel de diversão, objeto de ostentação (“Comer todas as burguesas em Fernando de Noronha” ainda dói nos ouvidos). A hipersexualização histórica da negra no Brasil, e sua solidão conjugal, encontra nesta inversão uma solução? Ou o machismo só se especializa? Do ponto de vista do consumo, tema central do álbum, o papel feminino continua a ser passivo, o de ser consumida como produtos das marcas de grife desejadas: “Swing e chocolate, preta Cadillac / Nem caro nem cost, nem Ferrari ou Lacoste”.
O Racionais cria épicos do crime com toda a viagem do desejo, mas sempre com o mesmo final pedagógico: a tragédia. A lição fica sendo uma tentativa de resistência ao desejo (não ceder à sua solução rápida ao custo da própria vida ou liberdade) ou, como é o caso de Cores & Valores, sua celebração. Mas a pergunta permanece: como consumir sem dinheiro e sem apelar para o crime? Se nem todo jovem pode ter uma vida bem-sucedida no RAP, o que fazer? O esboço de resposta que os versos mais fracos do álbum propõem parece autoajuda para empreendedores: “Financiar o seu sonho e acreditar em você / Seu limite cê que sabe, quer chegar aonde? / Ter helicóptero no iate, conquiste sua condição”. Não por acaso, é o tema do Rocky Balboa, herói da superação e da Sessão da Tarde, que embala o rap mais poderoso do álbum. Com flow impecável, ousado, atravessado de rimas improváveis, reveladoras, Brown está atento. Os versos finais mantêm a tensão e a contradição que estruturam o álbum, o nome do rap é uma questão: “Quanto vale o show?”. Do céu ao inferno, das canções ostentação do Funk e de Lorde à realidade paulistana: “A vitrine Pierre Cardin, Gucci, Fiorucci, Yves Saint Laurent, Indigo Blue / Corpo negro seminu encontrado no lixão em São Paulo”. O Indigo Blue e o corpo negro seminu rimam, este é o tema do álbum, este é seu incômodo.
Apesar disso, nas falhas e nos acertos, o aspecto mais importante deste álbum fica nas partes em que a contradição é mantida sem resolução fácil, como nas obras de arte mais interessantes que ajudam a nomear não o que já passou, mas o que ainda está para se decidir. Se é verdade que politicamente o Brasil ainda não saiu de 2013, esteticamente este álbum está na ordem do dia. Com a crise econômica e moral galopante acentuada pelo golpe, nunca a questão do consumo – e de sua perda – esteve tão visível no cotidiano. Trata-se de um álbum que tenta dar voz ao espírito contraditório de uma classe social recém-surgida no Brasil e já em perigo de extinção. Há décadas nenhuma outra voz da música brasileira falou sobre temas tabu, à esquerda e à direita, com a complexidade de quem as conhece e com a complexidade da expressão do grande artista. Conservação da grandeza da música negra brasileira e sua atualização última. O minimalismo do último álbum, uma mix tape ultra produzida, tão curto, é sinal de sabedoria, precisão que vem com a idade, sem fugir da raia. “Me degradar pra agradar vocês? Nunca”. Recado dado.
Foto: Boogie Naipe

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Vida Loka Parte II



Nenhum outro poeta no Brasil tem tantos versos decorados, na mente de jovens e velhos, quanto Mano Brown dos Racionais MC’s. Mas o RAP, embora seja ritmo e poesia, não é apenas poesia, nem quer sê-la. É também música somada a uma literatura oral, com origem no repente baiano e no Hip Hop estadunidense, que se comunica com uma sutileza e riqueza de referências de fazer inveja a muitas escolas estritamente literárias. Vida Loka Parte II, talvez a canção mais conhecida do grupo, é exemplar dos dispositivos técnicos utilizados por Brown para refletir esteticamente sobre as contradições do Brasil. O sétimo mandamento “não roubarás” é dramatizado em épica e lírica, sem moral da história ou conclusão, mas com aprendizado. Nenhuma política educacional de governo fez com que jovens periféricos refletissem com tanta profundidade sobre o dilema da criminalidade: vida longa, sob exploração brutal do Capitalismo que produz incessantemente desejos de consumo que não poderão ser realizados, ou vida breve, acelerada na super-dinâmica capitalista do crime, em que se arrisca o tempo de vida em troca da satisfação dos desejos (de poder e de consumo). Como sintetizado na fórmula brilhante de Brown: “Tempo pra pensar/ quer parar, que cê quer?/ Viver pouco como um rei/ ou muito como um Zé?”. Parte da aceitação do Racionais pelo seu público vem justamente da honestidade empática e da ausência de moralismo no tratamento de questões que são complexas como é complexa a realidade social brasileira. A mensagem não é “não faça”, mas: “se você fizer, tudo indica que isto ou aquilo vai acontecer como consequência, embora eu entenda o desejo de fazer”.
Vida Loka II é cantada sobre o trompete melancólico de um tema obscuro chamado, não por acaso, Theme From Kiss of Blood, encontrado por Brown em uma coletânea de trilhas sonoras de seriados policiais. Os primeiros versos justapõem imagens de consumo com imagens de miséria. A relação entre ambas ainda não é clara. A riqueza é associada com uma luta constante e com um lamento sobre sua necessidade ("Eu durmo pronto pra guerra/E eu não era assim"). O lamento reivindica um ideal, utópico e idílico, que se repete no rap, mas é impossível de se concretizar e sofre deboche por outro personagem, através da rima alucinante: “How, how Brown/ acorda sangue bom / aqui é Capão Redondo, tru / não é Pokemón”. A celebração do presente farto pelo eu-lírico (que neste momento é o próprio Mano Brown, cantor de sucesso de um grupo reconhecido nacionalmente) se ressente da luta que foi necessária e que obrigou o abandono do ideal: o tempo utópico é bloqueado pelo espaço distópico que é a Zona Sul. O rap segue com uma repetição variada da constatação inicial: a luta pela manutenção do poder de consumo é uma luta também contra os outros. A solução, então, não é fratricida: abandona-se a luta em prol de uma convivência conjunta. Desta convivência, ressurge o ideal, ainda que na Zona Sul. As condições da luta são declaradas em seguida: a criminalidade. Neste momento, a figura do lutador já não é mais Brown, mas um jovem encarcerado que arrependido do crime trocaria tudo para ter a convivência novamente com a mãe e o filho. Nesta revelação, o ideal ressurge com força através da invocação de um personagem bíblico: São Dimas, o bom ladrão, redimido por Jesus na cruz ("Aos 45 do segundo arrependido / salvo e perdoado / é Dimas o bandido"). O erro da aceitação da luta, na condição de crime, é absolvido a partir do arrependimento e a possibilidade inicial de ideal ressurge com força maior. Assim, não apenas o crime não é uma necessidade, mas quando cometido, não é o fim. Pelo contrário, é possibilidade de um ressurgimento. 
A exaltação religiosa que segue no fim do rap não traz, no entanto, um final feliz. A redenção é bloqueada no último verso em que se afirma que “em São Paulo, Deus é uma nota de cem”. Mais uma volta é dada na questão da luta: bloqueados os ideais, idílico e o religioso, para negros e pobres, a luta por consumo se mostra como uma luta por felicidade. Miséria traz tristeza e vice-versa, portanto vai-se à luta, na forma do crime, que leva a outro tipo de miséria (o encarceramento ou o assassinato), que, paradoxalmente, abre a possibilidade mística do ideal até então bloqueado, reconhecido, no entanto, também como impossível em São Paulo, cidade em que Deus também se converte em objeto a ser alcançado pela luta, tudo reduzido à imagem e semelhança do dinheiro, principalmente as pessoas. No meio dos produtos que seduzem na forma de imagem de felicidade, lamentavelmente, estão as mulheres, não como sujeitos igualmente despojadas, mas como mercadoria das mercadorias, mercadoria para usufruto da qual se exige a aquisição de todas as outras. Com uma lírica parabólica, costurada com personagens, ritmo sedutor e referências contemporâneas e clássicas, Brown apresenta em altíssimo nível a contraditoriedade de nosso quadro social, de seus agentes simultaneamente ativos e passivos, vítimas e algozes, com possibilidade bloqueadas e em seguida redimidas, em permanente e vertiginoso movimento. Como não nos reconhecermos na sensação insuperável de impotência, na crença inquebrável de que “é só questão de tempo o fim do sofrimento”?

(Vídeo lançado no ano de 2007 e produzido por Gabriel Braga para Paralelo Filmes, sob direção de Mano Brown e Kátia Lund)