| Valentina Herszage, em Mate-me por favor
Como o escritor deste blog está acompanhando a 39ª Mostra Internacional de Cinema, ele aproveita a chance de ver alguns filmes e comenta três que teve a oportunidade de assistir, cada um em um parágrafo:
Um cinema econômico, direto, mas nada óbvio. A profundidade das personagens aparece a partir de cenas que inteligentemente mostram, ao invés de só dizer. As aves e outros animais se relacionam com a personagem que dá título ao filme menos com metáforas do que como outros personagens também tentando sobreviver. A história: Wanja tenta se encaixar nas exigências da sociedade depois de passar sete anos na cadeia. A relação inexistente com uma filha distante ganha uma segunda e bizarra chance em sua relação com a jovem Emma. A vida juvenil de tédio e perigo no interior do norte da Alemanha, as dificuldades de ressocialização de uma mulher mais velha neste ambiente, a tentação das drogas, estes temas são tratados em imagens limpas, sem desespero, mas com uma sobriedade (de certa forma, irônica) quase insuportável.
A adolescência, fim da infância, início da vida adulta, começo do fim, é retratada nas imagens cuidadosamente pintadas deste filme em suas contradições e intensidade desnorteantes. Neste thriller juvenil, a mente da jovem protagonista Bia é aos poucos tomada por impulsos externos, uma misteriosa série de assassinatos com motivação sexual, e internos, a descoberta dos prazeres do corpo, das relações íntimas que os medeiam e de sua própria mortalidade. O sexo e a morte seduzem misturados o conjunto de jovens garotas em seus diversos cenários: escola, festa, igreja evangélica. O corpo aparece como extensão a ser descoberta, testada, mapeada, explorada até seus limites. O adulto é como se não existisse, absorvidas que estão as personagens em suas vidas. O funk melody é o tema musical que funciona com plano de fundo e modelo de abordagem: com a coragem e o risco de tratar de temas limites como a sexualidade e a pulsão de morte de jovens garotas.
Maria Augusta Ramos é uma das diretoras de documentário mais talentosas do Brasil. Em seu último documentário, sobre o processo de ocupação militar do Morro dos Prazeres no Rio, seu estilo alcançou o ápice da beleza e do rigor. Seus documentários são construídos do ponto de vista narrativo e representativo como se fossem filmes de ficção. As pessoas-personagens interagem entre si como se não estivessem sendo filmadas, com a naturalidade de atores profissionais. Em Futuro Junho percebemos que o evento-turbilhão Junho de 2013 ainda não foi completamente compreendido ou assimilado por nós como sociedade. Estamos ainda em Junho e o processo de luta contra a Copa do Mundo da FIFA, no qual Maria foca este documentário, é sua continuação-manutenção. As cenas escolhidas para retratar o cotidiano da vida dos quatro personagens (e as linhas invisíveis que o filme traça entre elas) são tão apuradas e falam tanto sobre ela que parecem fruto de roteiro de ficção. Assim como em Morro dos Prazeres, Maria se recusa a tomar acriticamente um lado. Seu trabalho é baseado na pluralidade dos discursos e no efeito reflexivo causado por sua justaposição. A beleza e veracidade de algumas imagens do filme arrepiará quem participou da luta, seja como protagonista, observador ou impactado.
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terça-feira, 27 de outubro de 2015
3 filmes da Mostra Internacional de Cinema de SP
terça-feira, 20 de outubro de 2015
Trauma, corpo e arte em “The Small Backs of Children”, de Lidia Yuknavitch
“I can feel my body. I can feel the heat at my chest and ribs and belly. I follow the heat story with my hand. I can make fire between my legs any time I like. I open my eyes and raise my head from the page of the Christ body. I look at it. I don’t care about this puny faith. I have died and been resurrected hundreds of times. What’s the Christ story compared to the bloodsong of one girl? How flimsy that story is. I believe in Velázquez. With our hands and art. I believe we must make the stories of ourselves. My name is Menas. This is my story”.
A dança, a performance e o canto são artes feitas quase apenas com corpo. A literatura, por mais que seja caligrafada ou digitada, ainda que cantada, parte de um corpo para participar de uma mediação infinita, por menor que seja, entre quem diz e quem ouve: a língua. Seria possível então escrever com o corpo, atravessando a mediação? Uma palavra que fosse não apenas significante puro, mas material, tátil? A pintura que se dedicou a mesma questão abriu mão de tudo o que pôde, tinta e pincel, e manteve o mínimo, tela, em contato com extremidades e fluidos do corpo. O contrário também: corpo como tela onde se pinta, se grava. O registro, resto material, destes acontecimentos carrega dos membros humanos, mãos, seios, pênis, dedos, costelas, algo mais que não apenas fluidos, saliva, sêmen, suor, sangue: marcas do esforço constante em ocupar espaço, da luta contra a resistência do ar, da gravidade, do impacto e do choque com outros corpos. Algo desta violência se marca na superfície da tela. A diferença na tela é para a pele a mesma que aquela entre o toque do dente-de-leão e o do chicote.
Não sendo literatura física (concretismo? publicidade? poesia onomatopéica?), o romance The Small Backs of Children (2015) de Lidia Yuknavitch descreve processos físicos de criação artística a partir do corpo traumatizado. O romance mostra nas diversas personagens o processo em que o corpo sofre uma violência e em que posteriormente trabalha a violência em forma de arte. O corpo é mostrado não como suporte de uma consciência, mas como objeto vivo que recebe e emite, que sofre violência e pratica arte e que sofre arte e pratica violência. “She’s a goddamn physical specimen”. O sexo, por sua vez, cumpre uma função ambígua. Ao mesmo tempo em que é o diálogo entre corpos que não podem ou não querem falar, é a origem da maior parte dos traumas que levaram ao (auto)silenciamento dos corpos. O sexo é sempre violento e tem mais relação com a manifestação de uma verdade do que com prazer. Quando é consensual, os corpos se violentam como o corpo violenta a tela. Quando não, traumatiza, emudece, transforma o corpo em objeto inanimado, traz por um ínfimo momento para o presente seu inevitável futuro: “All bodies are death bodies”.
A personagem principal, jovem vítima quase anônima de uma guerra civil invisível, aparece primeiro para as outras personagens (quase todas mulheres artistas) como imagem chocante em uma fotografia premiada internacionalmente: corpo de menina reagindo ao testemunho da aniquilação de outros corpos queridos. Antes de reaparecer para as outras personagens já como jovem artista, ela aparece para o leitor como criança criadora em pleno trauma: performer, arquiteta, pintora, que tenta recriar e renomear os corpos e lugares destruídos pela guerra. Sua comunicação se dá através destes meios. Sua companheira, enviuvada pela guerra, aceita e aprofunda o contato através do ensino de história da arte. A tradição surge não como peso limitador, mas como um tipo de língua, suporte básico para uma troca que, no entanto, nunca se concretiza completamente. A obra de arte não surge neste romance como possibilidade, danificada ou intensificada, de comunicação. Surge como possibilidade mesma de existência do corpo pós-trauma. “She is nothing but body: her legs and chest are burning, her jaw aches, her eyes swim in their little sockets”. A vagina traumatizada não sangra para expelir o óvulo, mas para produzir tinta.
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